Prá baixo, todo santo ajuda Junho 8, 2008
Posted by miguel in televisão.Tags: globo, jô soares, televisão, tv
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Vou me permitir esquecer de qualquer responsabilidade, muitas trazidas pelos belos e densos posts dos colegas, e apenas redigir uma pequena nota inútil.
POR QUE DIABOS DERAM UM ELEVADOR PRO JÔ SOARES?
Nessa nova “temporada” vieram com essa única novidade (além do figurino cada vez mais tosco do gordo): um elevador. E não é nada bonitinho, não é nenhum disco voador da Xuxa, é praticamente um andaime de carga, algo que o valha.
Dai começa o programa, a bandinha tocando sua sonzera e me desce o Jô mandando ver num bongô no elevador. E o ritmo do seu bongô não encaixa em parte nenhuma do todo.
Pra que? Total bizarro.
Mais estranho é que não achei um videozinho no youtube para compartilhar a cena tosca ;/
Mas nada mais profundo que isso. Não sou daqueles críticos ferrenhos do gordinho. Acho um espaço interessante dentro da maior TV do Brasil. Claro que tem seus problemas, mas bons momentos, entrevistados diversos, desde um zé mané que fez alguma besteira curiosa, passando pela pirralhinha de 15 anos da Mallu Magalhães, até a estrela pornô brasileira Mônica Mattos (que tem 23, caso alguem tenha ficado curioso).
Enfim, do artigo da Desciclopédia:
O corpo humano é o laboratório Março 13, 2008
Posted by flavioaguilar in vaca amarela.Tags: cinema, cultura
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Por Flávio Aguilar e Cristiana Simon
Está na essência da arte contemporânea a idéia de gerar instabilidade naquilo que parecia já ter caráter simbólico consolidado: desconstruir, remontar, gerar novos significados e fundi-los com a realidade. É nesse contexto de experimentação que está inserida a obra do cineasta David Cronenberg. Nascido no ano de 1943, de pai jornalista e mãe pianista, Cronenberg chegou a cursar faculdade de Biologia, demonstrando interesse peculiar pelo estudo de insetos, mas depois mudou para Letras, no qual graduou-se em 1967. Ainda quando cursava Letras, deu seu primeiro passo no mundo cinematográfico fazendo dois curtas-metragens de custo zero em 16 mm: Transfer (1966) e From the Drain (1967). Na década seguinte fez diversos outros trabalhos nesse mesmo formato para a televisão, até que, em parceria com Ivan Reitman – que teria sucesso produzindo e dirigindo comédias nos anos 80 e 90 -, gravou Calafrios (Shivers, 1975) e Enraivecida na Fúria do Sexo (Rabid, 1977), boas amostras do que ele viria a desenvolver em seus trabalhos posteriores: o estranho, o escatológico, o comportamento extremo do homem e da máquina e o horror fantástico. Em 1979, o diretor filma Filhos do Medo (The Brood), fechando com seus dois filmes anteriores uma espécie de trilogia que lhe rende o apelido de “Rei do horror venéreo”.
A transcendência da carne
Cronenberg trabalha em um campo vasto e, na maioria das vezes, repulsivo, em que a histeria coletiva é abordada com excelência. Para o diretor, o corpo humano está ali justamente para ser deformado, destruído e testado em suas múltiplas utilidades. Os fantasmas de Cronenberg são todos reais, e talvez por esse motivo o diretor sempre tenha se recusado a fazer filmes sobre demônios, almas penadas ou temas metafísicos. Não existe em sua obra o intocável ou o invisível simplesmente porque a morte não é intocável, e sim a putrefação da carne e o fim da vida. Esse caráter superior da carne é o centro de obras como Scanners – Sua Mente pode Destruir, de 1981, A Mosca (The Fly, 1986), refilmagem do clássico A Mosca da Cabeça Branca (The Fly, 1958), e Gêmeos – Mórbida Semelhança (Dead Ringers, 1988). A relação entre corpo, mente e máquina são transparentes.
Em Scanners, a telepatia ultrapassa uma habilidade mental para se tornar uma habilidade física, perceptível e dolorosa, inclusive. E se a ciência está aí para ser estudada e utilizada pelo homem a seu favor, isso não quer jamais dizer que seu uso será controlado. O inseto que vemos nascer da fusão molecular entre um homem e uma mosca doméstica em A Mosca é, claramente, uma crítica à crise da coerência humana frente às novas tecnologias. O jornalista e estudioso do cinema de horror Carlos Thomaz Albornoz definiu bem essa característica na obra de Cronenberg: “O problema não é a ciência, é quem ‘cuida’ e não dá limites a ela. Essa é a conseqüência na visão de mundo de Cronenberg. Não é uma coisa gratuita”. A perda da identidade na busca pelo prazer é outro elemento que atinge extremos nas obras cronenberguianas. Quando Seth Brundle, o cientista interpretado por Jeff Goldblum, percebe que adquiriu uma energia sexual renovadora após passar pelo processo de teletransporte, a reação imediata é o deslumbre, e não a autocrítica de futuras complicações resultantes da experiência.
Em Crash, inspirado no romance homônimo de J.G.Ballard de 1973, David Cronenberg vai além. O corpo funde-se à máquina, buscando uma forma de prazer psicopatológica e doentia. Orifícios, parafusos, genitálias dilaceradas, cacos de vidro e pele, velocidade e proeminências metálicas geram o gozo conjunto e nada egoísta dos personagens. O combustível de tudo: fetiche. “Eu diria que Crash é o suprassumo do fetichismo”, afirma Hiron Goidanich, crítico de cinema. Um fetichismo que em muitas cenas causa asco mas, nas mãos de Cronenberg, tem explicação. O prazer sexual que as personagens de Crash sentem pelos automóveis se relaciona ao poder que essas máquinas ganham nas mãos do homem. De todos os poderes, sem dúvida, o maior é o de matar, e isso leva Ballard e seus amigos a procurarem carrocerias acidentadas para a prática do sexo ou até extremos como simular acidentes de trânsito famosos.
O real e o imaginário como projeções da mente
A problemática relação entre homem e máquina aparece com um horror menos escatológico em Videodrome – Síndrome do Vídeo (Videodrome, 1983) e eXistenZ (eXistenZ, 1999). Os filmes firmam um diálogo ao tratarem ambos do conceito de ‘realidade virtual’, e da confusão entre esses diferentes níveis de realidade. Em Videodrome, perdemos a noção do que é real ao ver a história contada por Max Renn (James Woods), personagem que sofre com o maligno sinal de TV causador de alucinações e tumor cerebral nos seus espectadores. O filme ainda é, segundo Albornoz, “uma crítica ao mundo moderno e ao corporativismo”, retratando a confusão que a mídia provoca entre o real e a ficção – algo extremamente criticado por Guy Debord em seu livro A Sociedade do Espetáculo, influência declarada na obra de Cronenberg.
Se em 1983, é a televisão que ganha atenção especial em Videodrome, em 1999 é a vez dos jogos virtuais – e porque não dizer, do mundo da web – ganharem a confusão de eXistenZ. Existe entre os filmes, porém, uma diferença fundamental: ao contrário de Videodrome, onde as pessoas são levadas a outra realidade contra sua vontade, em eXistenZ a fuga é gozada com um fetichismo que lembra Crash. Isso não impede, no entanto, que se dê a mesma confusão com o real que se dá em Videodrome. A adoração e o prazer causados pelo bizarro jogo – híbrido entre a tecnologia e o aproveitamento de organismos vivos, conectado ao corpo humano diretamente na medula – causam por fim o fanatismo religioso que motiva pessoas a atentarem contra a criadora do eXistenZ, Allegra Geller (Jennifer Jason Leigh). A alienação da sociedade que Cronenberg critica em Videodrome e eXistenZ chega fundo no papel da mídia como porta-voz dos acontecimentos. A exposição à violência e à sexualidade e o culto à ciência teriam um papel banalizador à idéia de humanidade, resultando em patologias complexas e agonizantes – o ser estranho, assustado e assustador.
Em 2002 Cronenberg filma o que talvez seja seu filme menos repulsivo, mas igualmente tenso. Spider, protagonizado por Ralph Fiennes é uma obra de analogias entre realidade e ilusão, mundo adulto e infantil e sanidade e loucura. Para Hiron Goidanich, Spider “é uma coisa mais contida. Às vezes parece que as coisas estão acontecendo mais no cérebro do personagem do que no real, e isso nos remete mais especificamente ao Kafka”. De fato, o tratamento dos espaços interiores lembra bastante A Metamorfose. A mente do protagonista é uma rede crua e esquizofrênica. Fria, talvez, mas não de uma frieza violenta e sim, psicológica. Spider realmente tece teias em sua psique e envolve o público, que nada mais pode fazer além de se deixar guiar por uma Londres vazia e silenciosa. Um não declarado complexo edipiano ainda coloca teorias freudianas nas entrelinhas e temos um jogo difuso de recortes entre passado e presente em que não se sabe quem está no comando.
A singularidade dos personagens de David Cronenberg chegou a significar o aparecimento, por obra dos críticos, do adjetivo “cronenberguiano”: pessoas inconscientes do seu lugar no mundo, buscando sua identidade em meio à catarse de sentidos da sociedade em que vivemos. Porém, a formalização de um estereótipo é sempre perigosa. Goidanich diz que “não chega a existir uma consistência, com personagens constantes na obra do Cronenberg”. De fato, são todos parecidos, mas cada um à sua maneira, o que é também a natureza do ser humano. Filmes que tratam de temas específicos e mais distantes da ótica usual de Cronenberg, como M. Butterfly (1993) ou Mistérios e Paixões (Naked Lunch, 1992) vão cair na constante de alucinações, conflitos de identidade e singularidade, pois essas são questões do homem moderno. Em Marcas da Violência (A History of Violence, 2005), último filme do diretor, nota-se claramente a estrutura mais linear e menos balizada no horror fantástico que o consagrou, mas isso não afasta a obra da filmografia concisamente humanista de Cronenberg, onde cabem as mentes explosivas de Scanners, os estranhos prazeres de Crash, a repugnante transfiguração de A Mosca e as assustadoras realidades de eXistenZ. Além, é claro, de Senhores do Crime (Eastern Promisses, 2007) que estreou há pouco no Brasil.
Quem tem medo da América Espanhola? Março 4, 2008
Posted by Felipe Martini in vaca amarela.2 comments
97,8% das músicas estrangeiras tocadas em rádios brasileiras são em língua inglesa.
Me pergunto: quando a América Latina vai começar a olhar pra si?
Até lembro do velho Leminski me dizendo:
isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além
Sobre o Oscar Fevereiro 26, 2008
Posted by miguel in cinema.add a comment
Tarde demais para comentar, todo mundo já leu tudo: A Academia está mudando, premiando filmes menos convencionais, muitos indicados bem bons, gente velha, gente nova, Transformers injustiçado, essas coisas.
A cerimônia achei um saco. Não curto esse cara apresentando. Me divertia mais quando era o Billy Cristal. Tinha paródias.
Curti muito as duas atuações, do Day-Lewis e do Javier. Particularmente, gostei mais do Bardem. Assustador.
Daniel Day-Lewis encarnou o personagem, mas bem mais legal o Javier Bardem como um psicopata com um baita bad hair day
E o Oscar NÃO vai… Fevereiro 25, 2008
Posted by Marcio Telles in cinema.1 comment so far
Não sei se o Flávio ou o Migs vão querer fazer um comentário sobre o evento de ontem à noite, mas eu farei. Na verdade, eu poderia falar sobre os vencedores ‘eu-já-sabia’ como Onde os Fracos Não tem Vez (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante) e Daniel Day-Lewis como Melhor Ator, mas achei mais conveniente registrar minha queixa em relaçao ao grande INJUSTIÇADO da noite de domingo… Transformers.
“Paralá”, alguns dirão, “no post abaixo os caras falam sobre os maiores filmes da humanidade, e agora vem um neguinho falar sobro maior blockbuster de 2007?”. Ahã. Até por que é esse tipo de mentalidade que afasta os prêmios de filmes que são feitos primeiramente para entreter – depois para convencer. Ainda que os filmes destes anos tenham sido MUITO superiores do que os indicados do ano passado…
Após assistir a anos meus filmes favoritos não levarem nada para casa, resolvi me indignar. Tudo bem que Senhor dos Anéis passa longe de Melhor Roteiro Adaptado, mas com certeza mereceu suas estatuetas de Melhores Efeitos Especiais. Incrivelmente, em 2008, parece que nem mesmo prêmios técnicos os blockbusters ganham mais!
Não vi A Bússola de Ouro (e nem pretendo), mas duvido imensamente que qualquer efeito especial do mesmo seja melhor do que ver o Líder Opticus detonando os Decepticons. O trabalho do pessoal da ILM no filme dos robôs gigantes foi tão impressionante que não pensei em momento algum estar assistido a um monte de gente correndo na frente de um telão azul fugindo de robôs que não estavam lá. Personas computadorizadas nunca pareceram tão inseridas no filme quanto no filme do Michael Bay (que, de resto, tem mais furos no roteiro do que queijo suiço).
Só que não é justo defender os Transformers com palavras. A simples exibição de suas seqüências de ação já se encarregam desse serviço. Duvidam? É simples: uma das maiores dificuldades da indústria de FX é realizar cenas com computação gráfica diurnas (por causa da exposição da luz solar, que muda de origem conforme os movimentos do objeto). Ao que me lembre, pelo menos os quarente últimos minutos de filme foram realizados em plena luz do dia – e são de tirar o fôlego. E, nas fotos que vi, essa tal de Bússola me pareceu bem escurinho…
Confiram aí:

Realismo Mágico? Transformers venceu a dificuldade de realizar cenas com computação gráfica em plena luz do dia com maestria, mas não levou o Oscar

Mais do mesmo: “A Bússola de Ouro” é visualmente bonito, mas nada que já não tenha sido visto em Senhor dos Anéis e As Crônicas de Nárnia. Mesmo assim, levou para casa o careca dourado
100 filmes essenciais – Parte 1 (1-10) Fevereiro 17, 2008
Posted by flavioaguilar in vaca amarela.2 comments
Em 2007 a revista Bravo! lançou algumas edições especiais se dedicando a elaborar rankings de 100 filmes, 100 livros e 100 lugares essenciais. Eu nunca havia comprado ou sentido falta de ter uma Bravo!, mas me atraiu a idéia das listas que a revista estava elaborando. A edição que decidia quais eram os 100 lugares essenciais da cultura ao redor do mundo não me chamou a atenção. Talvez chame quando eu tiver dinheiro e tempo pra conhecer ao menos 10 desses lugares – o que, muito provavelmente, nunca chegará a acontecer. Porém, as listas de filmes e livros já me eram menos distantes. Comprei a dos livros e consegui emprestada a dos filmes com o Márcio.
Vamos falar um pouco mais sério agora. Essas listas, claro, não são, nunca, mais que uma diversão para quem as fez. Também sempre encontraremos N coisas das quais discordar. Isso entra em harmonia com o fato de as listas fazerem tanto sucesso. Nada melhor do que termos algo do que discordarmos. Mas vejo, além do exercício da discussão que essas publicações nos proporcionam, outra qualidade louvável nas listas: a de servir como “guia” para quem tem gosto pela coisa. Alguém que gosta de cinema não precisará acreditar que os 100 filmes citados pela Bravo! são realmente os 100 filmes essenciais, mas com certeza terá um empurrão precioso para se atirar na poltrona e assisti-los, contando ainda com informações e visões valiosas já antecipadas por esses “guias”.
Algo assim aconteceu comigo. Somado à necessidade de me empenhar um pouco mais nos posts que faço pro Vaca Amarela, decidi ver os 100 filmes, e escrever minhas impressões a respeito. Obviamente essa não é uma idéia original, mas quem se importa? Dos 100 filmes, eu já tinha visto 35, nas minhas contas. Destes, decidi rever 14, dos quais já não lembrava de muita coisa. Estou baixando aos poucos os filmes (ah, o doce aroma da pirataria…), de 10 em 10, que é como escreverei para o blog. Hoje saem os 10 primeiros, os 10 fodões.
Alguém pode fazer um comentário maldoso. “E por que tu não faz isso com os 10 livros?” Bom, querer eu quero, mas falta tempo. Então, quem sabe, num futuro distante?
Segue a lista completa e, abaixo, as primeiras avaliações.
01. Cidadão Kane (1941), de Orson Welles
02. O Poderoso Chefão (1972), de Francis Ford Coppola
03. Sindicato de Ladrões (1954), de Elia Kazan
04. Um Corpo Que Cai (1958), Alfred Hitchcock
05. Casablanca (1942), de Michael Curtiz
06. Oito e Meio (1963), de Federico Fellini
07. Lawrence da Arábia (1965), de David Lean
08. A Regra do Jogo (1939), de Jean Renoir
09. O Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein
10. Rastros de Ódio (1956), de John Ford
11. Cantando na Chuva (1956), de Gene Kelly e Stanley Donen
12. Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder
13. Persona (1966), de Ingmar Bergman
14. O Mensageiro do Diabo (1955), de Charles Laughton
15. 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick
16. Os Sete Samurais (1954), de Akira Kurosawa
17. O Leopardo (1963), de Luchino Visconti
18. Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese
19. Era uma Vez em Tóquio (1953), de Yasujiro Ozu
20. Fitzcarraldo (1982), de Werner Herzog
21. Acossado (1959), de Jean-Luc Godard
22. Jules e Jim (1962), de François Truffaut
23. O Conformista (1970), de Bernardo Bertolucci
24. Em Busca do Ouro (1925), de Charles Chaplin
25. Metrópolis (1926), de Fritz Lang
26. O Sétimo Selo (1956), de Ingmar Bergman
27. A Aventura (1960), de Michelangelo Antonioni
28. Amarcord (1973), de Federico Fellini
29. Viridiana (1961), de Luis Buñuel
30. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), de Woody Allen
31. O Nascimento de uma Nação (1915), de D. W. Griffith
32. Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola
33. Era uma Vez no Oeste (1968), de Sérgio Leone
34. Assim Caminha a Humanidade (1956), de George Stevens
35. Psicose (1960), de Alfred Hitchcock
36. O Martírio de Joana D’Arc (1928)
37. Touro Indomável (1980), de Martin Scorsese
38. Olympia (1938), de Leni Riefenstahl
39. O Falcão Maltês (1941), de John Huston
40. Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha
41. Dr. Fantástico (1964), de Stanley Kubrick
42. Roma, Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini
43. A Doce Vida (1960), de Federico Fellini
44. Chinatown (1974), de Roman Polanski
45. A Felicidade Não se Compra (1946), de Frank Capra
46. …E o Vento Levou (1939), de Victor Fleming
47. Tempos Modernos (1936), de Charles Chaplin
48. A Um Passo da Eternidade (1953), de Fred Zinnermann
49. O Sacrifício (1986), de Andrei Tartovski
50. Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick
51. A General (1927), de Buster Keaton
52. O Homem Elefante (1980), de David Lynch
53. O Mágico de Oz (1939), de Victor Fleming
54. Querelle (1982), de Rainer Werner Fassbinder
55. A Primeira Noite de um Homem (1967), de Mike Nichols
56. Morte em Veneza (1971), de Luchino Visconti
57. A Última Sessão de Cinema (1971), de Peter Bogdanovich
58. Os Bons Companheiros (1990), de Martin Scorsese
59. Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982), de Ridley Scott
60. A Malvada (1950), de Joseph L. Mankiewicz
61. Nosferatu (1922), de Friedrich W. Murnau
62. O Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci
63. Ladrões de Bicicleta (1948), de Vittorio de Sica
64. Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders
65. Pulp Fiction – Tempo de Violência (1994), de Quentin Tarantino
66. Repulsa ao Sexo (1965), de Roman Polanski
67. Crimes e Pecados (1989), de Woody Allen
68. Uma Rua Chamada Pecado (1951), de Elia Kazan
69. Butch Cassidy e Sundance Kid (1969), de George Roy Hill
70. Os Imperdoáveis (1992), de Clint Eastwood
71. Patton – Rebelde ou Herói? (1969), de Franklin J. Schaffner
72. Tudo Sobre Minha Mãe (1999), de Pedro Almodóvar
73. Um Lugar ao Sol (1951), de George Stevens
74. Um Estranho no Ninho (1975), de Milos Forman
75. Amor à Flor da Pele (2000), de Wong Kar-Wai
76. Hiroshima, Meu Amor (1959), de Alain Resnais
77. Kaos (1984), de Irmaõs Taviani
78. Brazil, O Filme (1985), de Terry Gilliam
79. Quanto Mais Quente Melhor (1956), de Billy Wilder
80. Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles
81. Os Homens Preferem as Loiras (1953), de Howard Hanks
82. Um Cão Andaluz (1928), Luis Buñuel
83. Los Angeles – Cidade Proibida (1997), de Curtis Hanson
84. Pixote – A Lei do Mais Fraco (1981), de Hector Babenco
85. Ben-Hur (1959), de William Wyler
86. Fantasia (1940), de Walt Disney
87. Sem Destino (1969), de Dennis Hopper e Peter Fonda
88. Dogville (2003), de Lars Von Trier
89. O Império dos Sentidos (1976), de Nagisa Oshima
90. Um Convidado Bem Trapalhão (1968), de Blake Edwards
91. A Lista de Schindler (1993), de Steven Spielberg
92. Guerra nas Estrelas (1977), de George Lucas
93. O Pântano (2000), de Lucrecia Martel
94. Cabaré (1972), de Bob Fosse
95. Operação França (1971), de William Friedkin
96. King Kong (1933), de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack
97. As Invasões Bárbaras (2003), de Denys Arcand
98. Fargo (1996), de Joel e Ethan Cohen
99. M.A.S.H. (1970), de Robert Altman
100. Lavoura Arcaica (2001), de Luiz Fernando Carvalho
01. Cidadão Kane (1941), de Orson Welles

Um dos lugares-comuns das listas desse gênero, Cidadão Kane invariavelmente aparece como melhor filme de todos os tempos. O mais assustador de tudo é que isso não é um exagero ou supervalorização do filme. Nenhuma outra obra, a meu ver também, mudou tanto o cinema em sua linguagem quanto Cidadão Kane. Desde elementos de montagem, fotografia e iluminação até aspectos da forma de atuação dos atores, a obra-prima de Orson Welles – então com 25 anos, ele dirigiu, escreveu e atuou no filme – é um pilar essencial para a construção da linguagem própria do cinema, não à toa, abrindo a época de ouro de Hollywood. Tudo isso já foi dito e repetido zilhares de vezes, mas o que posso dizer mais? Apenas que a gente, quando acaba o filme, mantém por um breve momento esse semblante de estupefação, algo como pensando: “desgraçado, como ele fez isso?”
Pra nós, pretensos jornalistas, ainda tem um gostinho especial. Cidadão Kane narra a vida de Charles Foster Kane, menino pobre que se transforma num dos homens mais ricos do planeta, ganhando fama principalmente com seu envolvimento na mídia e seu comportamento controverso. A atuação de Kane no jornalismo exibe um pouco do que já era praticado nas grandes corporações de mídia na primeira metade do século passado.
No entanto, a história de Kane não se limita a ser uma crítica a pessoas como ele próprio – dizem que sua personagem foi inspirada em William R. Hearst, magnata do jornalismo da época. Antes disso, mostra as contrariedades do ser humano em diversos momentos de sua vida, a complexidade do homem do século XX. Da incrível grandiosidade/profundidade da história, em harmonia com a revolução que causou na linguagem do cinema em aspectos técnicos, Cidadão Kane sai como campeão dessa lista, com justiça, e provavelmente continue assim por muito tempo.
02. O Poderoso Chefão (1972), de Francis Ford Coppola

Entre o pessoal que gosta e estuda cinema, mas renega os clássicos da época de ouro da sétima arte – por preconceito ou mesmo aversão ao preto e branco – O Poderoso Chefão consta quase sempre como favorito. Eu não me encaixo nesse perfil, mas também tenho grande apreço pela obra-prima de Coppola, que vi pela primeira vez muito novo e depois revi algumas muitas vezes. Baseado no livro de Mario Puzzo, O Poderoso Chefão inovou como primeiro grande filme a mostrar o mundo da máfia pelo lado dos mafiosos, e no seu ritmo. Acima das críticas que tal tipo de filme sempre receberá por estar fazendo, dizem, apologia ao crime, O Poderoso Chefão é uma obra de arte delicadamente construída.
Ali temos de tudo: um extenso e inteligente roteiro, fotografia e montagem impressionantes, atuações majestosas – só Marlon Brando já justificaria a película – e uma trilha sonora inteligente, tudo sob uma direção impressionante, que Coppola não conseguiria mais repetir. O grande trunfo do filme, e um dos maiores motivos das críticas negativas, é o glamour operístico com que a história de sangue e traições foi retratada. As mortes são poéticas, as traições são inteligentes, os maiores canalhas são charmosos, a ponto de rirmos invariavelmente de situações que, em outros casos, nos dariam repulsa e nojo.
O Poderoso Chefão inaugurou praticamente um novo gênero no cinema, do crime como o faroeste urbano. Mas dessa vez o vilão é o cowboy, e também aqui torcemos por ele. O comportamento da família Corleone e de seus rivais acabaria por influenciar decisivamente outros filmes e mesmo o imaginário popular americano, tanto em relação à máfia quanto aos imigrantes italianos em geral. O filme ainda conseguiria a façanha de se tornar mais popular que o livro de Puzzo e ter duas continuações sendo também indicadas ao Oscar de melhor filme (apenas a terceira parte não saiu vencedora).
03. Sindicato de Ladrões (1954), de Elia Kazan

Puxa vida, e vejam o Brando aí de novo. Temos em Sindicato de Ladrões mais uma soberba atuação do ator que é considerado por muitos o maior do cinema. Mas, claro, as qualidades do filme de Kazan não se esgotam aí. Sindicato de Ladrões se justifica no Top 3 da Bravo! e talvez se justificasse também no meu Top 3 – inclusive já fiz uma resenha a respeito no apartamento73.blogspot.com. Uma história bem dirigida por Kazan, com, além de Brando, diversas outras grandes atuações, e elementos preciosos na narrativa, fazem desse filme outro marco na história do cinema.
A história sensibiliza do início ao fim. Ao tratar da corrupção e violência que dominava um sindicato de trabalhadores portuários, Sindicato de Ladrões mostra a triste situação da divisão de classes dentro de classes, da dominação de homens por outros em escala infinita, da deterioração do indivíduo em um capitalismo que lhe tira a vontade e as oportunidades.
No centro da história, Terry Malloy (Brando), um ex-boxeador frustrado pelos interesses do irmão Charley (Rod Steiger) na luta que poderia ter lhe levado à fama no boxe, vive na mediocridade como parasita do corrupto sindicato de trabalhadores das docas, uma máfia comandada por Johnny Friendly (Lee J. Cobb), de quem Charley é o braço direito. Após participar do assassinato de um amigo que estava criando problemas ao sindicato, Terry se apaixona por sua irmã, e passa o filme no dilema de entregar os “amigos”, entre eles seu irmão, para a justiça – e assim sair da condição moral miserável em que vive – ou nessa condição se manter.
São diversas as cenas antológicas, incluindo o famoso diálogo de Terry com Charley no carro, usada em aulas de interpretação no mundo inteiro. O desfecho – que eu não vou contar – me fez levantar da cama e permanecer em pé até rolarem os créditos finais.
04. Um Corpo Que Cai (1958), Alfred Hitchcock

O grande Hitchcock merece seu lugar entre os primeiros colocados da lista, dada sua imensa contribuição no desenvolvimento do gênero “suspense”, ou “mistério”, como preferirem. Entre tantos exemplos de sua arte, é uma verdadeira briga escolher o melhor, ou os melhores. Um Corpo que Cai se justifica pela infinidade de elementos presentes, pela densidade que vai ganhando aos poucos. Somado ao malabarismo de Hitchcock temos uma grande atuação de James Stewart – entre tantas.
Grande exemplo de como se fazer suspense sem serial killers ou monstros pantanosos, Um Corpo que Cai traz o ex-policial Scottie (Stewart), encostado devido à sua acrofobia, se vendo em meio a uma trama sobrenatural a pedido de um antigo amigo. Difícil evitar os spoilers, já que é nas reviravoltas da trama que moram seus maiores méritos. Mas posso dizer que tive durante o filme pensamentos diversos sobre temas como medo, aparência, paixão, dor, desespero, por aí vai. As personagens são frias, mesmo quando sofrem, e dão pena.
Escolhido como uma das obras-primas de Hitchcock, Um Corpo que Cai é um desses filmes (o velho sabia fazer isso) cheio de pistas malucas, figuras estranhas e lacunas que estimulam o raciocínio e as teorias mais sem pé nem cabeça sobre “o que realmente aconteceu”. Por isso existe o silencioso culto sobre seu enredo, tanto pelos fãs ardorosos do diretor, quanto por cinéfilos em geral. Tudo devido a essa capacidade de nos fazer de burros com assombrosa facilidade.
05. Casablanca (1942), de Michael Curtiz

Casablanca é o único filme que já vi roubar o posto de Cidadão Kane em algumas listinhas por aí. Não é à toa. Assim como exemplos de filmes que já resenhei antes, que servem de base para gêneros no cinema por décadas, o filme de Michael Curtiz tem elementos suficientes para servir de referência como romance. Aliás, um romanção.
Não se faz com facilidade essa espécie de romance, que consegue tratar de um amor clássico, doentio, mesmo ultrapassado, sem se tornar piegas e apelativo. Para tal feito, Curtiz se serviu de uma comovedora história, ambientada durante a Segunda Guerra Mundial e seus efeitos desastrosos na condição humana do século XX, e do charme dos atores principais, o galã feio Humphrey Bogart e a bela Ingrid Bergman. O resultado é impressionante. A série de cenas memoráveis, os diálogos inteligentes e As Time Goes By nos sugam para dentro dos sentimentos de Rick e Ilsa. Mas isso ganha um aporte na atmosfera de desespero da Segunda Guerra, em uma cidade tomada por pessoas que, fugindo da destruição européia e do nazismo, tentam seguir em frente com o que lhes resta – muito pouco.
Incrível pensar na forma como os roteiristas trabalharam no filme – baseado inicialmente em uma peça de teatro – dada a dimensão dramática coesa e inteligente do resultado final. O roteiro era escrito e reescrito por Julius e Philip Epstein – com a colaboração de Howard Koch – nas vésperas das filmagens, tornando a discussão sobre os caminhos que seriam dados à obra quase pública. Ingrid Bergan chegou a comentar tempos depois: “todos os dias nos entregavam diálogos e tentávamos pôr algum sentido naquilo”. Não é uma declaração exagerada, e faz pensar que a história sobre o roteiro de Casablanca também poderia ter dado um ótimo roteiro.
A última grande polêmica no roteiro foi sobre seu final. E o cinema agradece até hoje pela sábia decisão tomada – não sei quem ganhou a discussão, mas ganhou pela vida inteira – de se deixar Rick a ver navios (um avião, no caso).
06. Oito e Meio (1963), de Federico Fellini

Eu nunca tinha visto nada do Fellini. Em compensação, já havia lido muita coisa a respeito, mesmo contra a vontade. Acho que falavam tantas maravilhas dele que eu não me sentia preparado para a “experiência”. Então, em meio à minha empreitada pela lista da Bravo! me deparei com Oito e Meio e decidi arriscar. No final do filme a primeira coisa que pensei foi que, realmente, talvez eu não estivesse preparado até bem pouco tempo pra passar pela enchente de sensações e experimentações de Fellini. Mais que isso, pensei que é um filme desses (como acontece com tantas outras coisas) que se deve experimentar de tempos em tempos, com a certeza de novas descobertas.
Sim, Oito e Meio é “uma viagem”. A história parece boba: um diretor com crise criativa, pressionado por família, amigos e colegas a iniciar os trabalhos de seu novo filme. Porém, com todo o surrealismo que se preze, Fellini afoga Guido (Marcelo Mastroianni) em um caldo turvo de lembranças, sonhos e alucinações em busca de sua identidade. A memória, tema ultra-recorrente nos filmes de Fellini – freqüentemente emerge aí o passado do próprio diretor – é tratada com sofisticação artística e virtuose criativa.
Uma obra cativante, assim eu posso definir Oito e Meio. Pensando agora, enquanto escrevo, sobre suas personagens, não me vem uma só que me cause antipatia. Todas são mais que isso, são incrivelmente humanas, reais. O próprio Guido é infiel, instável, freqüentemente estúpido com sua mulher, amigos e colegas de produção; porém se mantém um herói a cada fraqueza sua exibida com as lembranças de criança, com os recorrentes e pequenos arrependimentos que tem no decorrer do filme. No final, a grande celebração é a da complexidade do homem, a louvação da resistência à modernidade e à visão enlatada do ser. O desfecho é um dos mais poéticos a que já assisti.
07. Lawrence da Arábia (1965), de David Lean

Lawrence da Arábia é, realmente, grandioso. Um desses filmes que, como é escrito na resenha da Bravo!, tenta condensar em uma longa história vários gêneros possíveis, com seu tom épico e majestoso. Não à toa, dizem que Spielberg costuma assisti-lo antes de começar o trabalho de seus filmes, já que é esse estilo, essa grandiosidade, que o pai do E. T. costuma buscar também nas suas obras – às vezes chega perto, às vezes passa longe.
Mais do que a genial direção de David Lean para a história, o que brilha é a história em si, uma epopéia nas arábias do tempo em que a região nada mais era que um bando de beduínos queimando no deserto – isso não mudou completamente. Lawrence (Peter O’Toole) é um baixo oficial do exército inglês que, durante a Segunda Guerra Mundial, recebe a missão de observar a possibilidade de usar os árabes contra os turcos, então inimigos ingleses e que dominavam a região. Ele não apenas observa, acaba por virar quase um profeta entre os árabes, conseguindo em dado momento a união de tribos rivais à vitória em missões consideradas impossíveis através do deserto.
David Lean era um grande diretor, sem dúvidas. Além de Lawrence da Arábia, dirigiu outras pérolas como A Ponte do Rio Kwai e duas adaptações de Charles Dickens: Grandes Esperanças e Oliver Twist – que se tornariam as adaptações clássicas das não menos clássicas obras do escritor inglês. Lean se consagra nesse filme de 1962 como um diretor ambicioso e detalhista, seus maiores méritos: a fotografia é perfeita, assim como a montagem, a direção dos atores, a música, figurinos, cenários. Tudo dá, realmente, a impressão de ter sido pensado à exaustão. E por isso não duvidamos dos mitos sobre o filme que contam sobre cenas que demoraram dias pra serem filmadas em busca do sol ideal.
Lawrence da Arábia, fora de seus aspectos técnicos, faz pensar sobre a alta cúpula da discussão política internacional, sobre como se moldam questões de ordem mundial a partir de poucas pessoas e atitudes, além da influência da imprensa e dos jogos diplomáticos. A última cena do filme faz referência à primeira, e temos a singela impressão de que essa jogada nada mais é que um retrato da nossa circular fábrica de mitos.
08. A Regra do Jogo (1939), de Jean Renoir

Renoir é um desses caras de quem a gente quase só ouve falar, hoje em dia, em aulas de ou sobre cinema. Foi assim que eu o “conheci”: escutei algum grupo de colegas apresentando um seminário a seu respeito – aliás, lamentável. O diretor francês é, não só um pilar do cinema de seu país, como também do cinema europeu. Fez bem seu papel nesse sentido, filmando diversos temas da cultura francesa, como uma adaptação de Madame Bovary.
A Regra do Jogo é um filme excessivamente datado, difícil de se acompanhar sem abster de crítica e sono diversos aspectos que, claro, temos hoje como ultrapassados. Nesse primeiro ponto, me foi difícil aceitar as atuações teatrais do elenco. Porém, com maior análise, vem outro elemento à tona: assim como temos aspectos datados em A Regra do Jogo – e isso é natural em 1939, em um diretor ‘clássico’ – temos outros aspectos que nos são atuais a ponto de terem sido incompreendidos na época de seu lançamento. Esse não é um fenômeno de A Regra do Jogo, mas sim da filmografia de Renoir, com trabalhos que tratam com sensibilidade e amargura temas polêmicos e/ou traumáticos da sociedade européia da primeira metade do século XX. Quando me refiro a um tema traumático, falo da Primeira Guerra Mundial que Renoir retratou em A Grande Ilusão; quando falo em um tema polêmico, é sobre A Regra do Jogo, um retrato fervoroso do comportamento da sociedade francesa de então, mais especificamente sobre as aparências e o cerimonial formado para esconder a podridão dos costumes nacionais – desde a aristocracia até a ralé.
Ao mostrar as relações humanas entre um grupo de amigos aristocratas e burgueses e seus empregados, numa caça de final de semana na casa de campo do Marquês de La Chesnaye, Renoir – que também atua no filme – faz uma apresentação irônica das personagens, onde provavelmente ninguém vale o que come. A moral inexiste. Todos traem, fingem, mentem, são arrogantes – e aí temos a crítica à divisão de classes – e, por fim, matam – sem grandes problemas em relação a isso. O tom que Renoir dá é de farsa, e isso foi o que, com o passar das cenas, me fez aceitar melhor as atuações exageradas do filme. A Regra do Jogo tem mesmo essa qualidade de nos fazer ver que pouco ou nada mudou – antes piorou – quanto à qualidade das relações que temos com nossos pares e, em geral, com o mundo em que vivemos.
09. O Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein

Sim, esse sim é um filme datado. Além de datado, entranhado pela propaganda socialista russa de 1925, primeiros anos da revolução vermelha. Mas não se deve dar grandes atenções em relação à história como panfleto, pois o que importa mesmo, em primeira análise, é a técnica de Eisenstein e sua contribuição na formação da linguagem cinematográfica – alô, Cidadão Kane? Por isso, mais do que Renoir, O Encouraçado Potemkin é um desses filmes admirados mesmo nem pelos críticos, mas sim por quem estuda cinema – e foi em uma aula dessas que o vi pela primeira vez.
A história é simples o suficiente para que não precisemos da tradução para a entendermos – tudo bem, esse é um mal de grande parte do cinema mudo. Já as contribuições que o russo deu ao cinema esteticamente, e seu mérito como tal, são importantíssimas. Montagem inovadora, movimentos de câmera nunca antes executados, cenas carregadas visualmente, dramaticamente – as célebres cenas em que os marinheiros tomam o navio e, depois, na escadaria de Odessa.
Em uma segunda análise, é válido aceitar que, mesmo dominado pela ideologia marxista e financiado pelos bolcheviques – o filme tinha função “educativa” na Rússia da época – Eisenstein soube contar muito bem, com grande sensibilidade, uma história que não é propriedade do socialismo, é antes um episódio deplorável do uso da força para conter a insatisfação dos povos contra as condições a que governos os submetem. O massacre de Odessa, que começou com a tomada do navio pelos marinheiros, é mais um desses eventos que, infelizmente, acabam sendo tomadas como pertencentes e devedores a ideologias, perdendo seu crédito a algumas visões de mundo, e sendo simplificado por outras.
Por alguma dessas ironias do destino, Einsenstein, autor da maior obra artística do bolchevismo, acabaria sendo perseguido por esse regime posteriormente, por tentar se desvincular dos preceitos dogmáticos socialistas e se focar apenas na arte pela arte. Hoje, também é perseguido por críticos de cinema que não separam a carga poética da carga ideológica do filme.
10. Rastros de Ódio (1956), de John Ford

Puxa vida. Para mim, que há pouco tempo já havia descoberto o gosto por bons filmes de faroeste, foi agradabilíssimo ter a oportunidade de conhecer esse. Rastros de Ódio é considerado a obra maior, do maior nome do western, o diretor John Ford. Na minha opinião, justiça feita. A história é bem elaborada, fugindo dos enredos mais simples do gênero para entrar em terreno mais árido e nos fazer pensar.
São muitos os acertos de Ford. A começar pela trama densa e pesada, passando por críticas suaves à visão colonialista dos americanos na conquista do oeste, até toques certeiros de humor, drama, romance e ação. Temos uma grande atuação de John Wayne, bela fotografia, ritmo na medida. A história, melancólica, tem Ethan (Wayne) como um ex-combatente confederado da Guerra da Secessão que tem sua família massacrada por índios – algo comum na época, na disputa pelas terras – excetuando-se a sobrinha mais nova, que é raptada, e o filho adotivo de seu irmão, Martin (Jeffrey Hunter), mestiço que se salva da morte por estar junto com Ethan no momento do ataque. Ethan e Martin saem então atrás do que lhes resta: resgatar Debbie. A jornada se arrastará por anos.
A construção das personagens é soberba, forte. Figuras rústicas de uma região em conflito permanente, com americanos, índios e mexicanos tendo que conviver e se enfrentar de maneira inevitável. Monument Valley é o cenário ideal para a história, a música de Max Steiner parece sair ao natural dos sentimentos das personagens. O final do filme guarda diversas surpresas e algumas cenas antológicas. Uma inspiração para meus próximos 10 filmes da lista…
Memórias do Siriú – Parte I Fevereiro 6, 2008
Posted by Marcio Telles in vaca amarela.1 comment so far
Um breve atualizada sobre a aventura carnavalesca de tomar batida de cogumelos e não dar em nada… mas ter ótimas histórias para contar:
marcio. diz:
bah!
marcio. diz:
uma amiga minha foi assaltada por indios!
flavio diz:
ah pára!
marcio. diz:
nao é sacanagem
marcio. diz:
indo pro Psicodalia
marcio. diz:
ela foi parada por uma “blitz” de indios
marcio. diz:
e eles roubaram o onibus inteiro
flavio diz:
meu deus!!
flavio diz:
hahahahaha
flavio diz:
se fudeu
flavio diz:
mas que indios sao esses? os peles-vermelhas?
marcio. diz:
sei lá
marcio. diz:
mas devem ser indios civilizados né
marcio. diz:
nao de cocar e arco-e-flecha
flavio diz:
sim, muito civilizados
marcio. diz:
ah bom
marcio. diz:
nao que tenham moral cristã e etc, mas pelo menos vestem calças
flavio diz:
e assaltam
marcio. diz:
eles precisam sobreviver… se tu morasse na beira da estrada e visse um bando de adolescentes hippies-sujos indo pra uma versao catarinense do Woodstock tu tb ia querer assaltá-los
flavio diz:
eu ia querer matar
flavio diz:
mas assaltar, não
flavio diz:
eles que vão plantar batatas
marcio. diz:
ou crir bois zebus pra que a merda dê cogumelos…
Resenhas desinteressadas, parte 1: Casa Tomada, Julio Cortázar Janeiro 23, 2008
Posted by flavioaguilar in vaca amarela.1 comment so far
Casa Tomada foi o primeiro conto publicado de Cortázar e é, sem dúvidas, um de seus textos mais conhecidos. A estratégia discursiva usada por ele na construção do conto é um ótimo exemplo da construção elaborada e inovadora de Cortázar durante o restante de sua obra. Casa Tomada é um modelo de conto do realismo fantástico, tão tradicional na literatura latino-americana no século XX e que tem em outro argentino, Jorge Luis Borges, o seu maior expoente.
Em um clima angustiante, asfixiante, Cortázar trabalha em Casa Tomada com o conceito do sinistro, em uma situação totalmente vinculada à idéia do perigo do espaço fechado, o que é uma abordagem claustrofóbica da tensão. Na sua concepção – exercida nesse conto e em tantos outros – o espaço fechado traz o perigo, enquanto o espaço aberto é seguro, associado à liberdade.
Casa Tomada gira em torno de duas histórias, em uma alusão clara às teses de Ricardo Piglia sobre o conto. De um lado, conta a convivência de dois irmãos que habitam a mesma casa, de posse da família há anos. Assim, por meio da narração dos seus hábitos e costumes, vai sendo desvelada a maneira como eles vivem e o modo como interagem. De outro lado, o que move o conto é a relação de ambos com a casa e, fatalmente, com a presença anônima que vai aos poucos tomando conta do lugar. Ricardo Piglia escreve em Laboratório do Escritor que no conto moderno se trabalha a tensão entre duas histórias, tornando ambas uma só; Uma diferença crucial para o conto clássico de Poe, que vai contar uma história em função da outra e usar sistematicamente a técnica do final surpreendente, do momento em que uma história explica a outra. Em Casa Tomada, se tem um perfeito disso.
Assim como é feito por Piglia em sua análise crítica, podemos usar o recurso de aplicar o método narrativo de um escritor a determinada história, por que não? Arrisco-me a fazer esse exercício: se Poe trabalhasse o mesmo enredo de Casa Tomada, provavelmente o final revelaria ao leitor uma explicação da relação dos dois irmãos, e, assim, o absurdo seria útil para analisar a realidade. Dessa intenção, Cortázar passa longe: sua idéia, no realismo fantástico que faz, é trazer o absurdo e o subjetivo a essa realidade como forma de reinventá-la.
Cortázar, em sua obra crítica, deixa clara uma visão pessimista quanto à idéia central do realismo. Segundo ele, a idéia do realismo gira em torno de uma crença do escritor de que as coisas podem ser descritas dentro de um universo estável, de que a relação causa-efeito é algo previsível levando em conta uma exacerbação da aplicação da psicologia como método explicativo para o comportamento humano. No realismo fantástico praticado por ele, Cortázar é brilhante por narrar eventos inimagináveis com a naturalidade de um Eça de Queirós. Ao mesmo tempo em que coloca o realismo puro como limitador do universo humano, Cortázar usa de seu advento para tornar sua literatura impactante. Essa relação é que forma a surpresa do leitor a cada página de sua obra, proveniente de uma manipulação de Cortázar sobre a lógica psicológica do seu leitor. Assim como os escritores realistas, ele também julgava a realidade, mas dela tirava o necessário para transformá-la em matéria disforme.
Para uma maior compreensão desse conto, seguem algumas escolhas do autor na sua confecção: o tempo cronológico é baseado em sumários, ou seja, a história é narrada com pouca presença de descrição de cenas para dar a idéia de um tempo desperdiçado pelos personagens e a aparente despreocupação do narrador – o irmão – com o andar dos acontecimentos; aliás, a onisciência seletiva dada ao irmão é outro ponto fundamental para dar a idéia de alienação do próprio enredo.
É transmitida ao leitor uma desconfiança sobre os pensamentos do narrador, que se apresenta ao leitor de maneira humilde e tranqüila, disfarçando do modo necessário sua visão egocêntrica. A irmã, Irene, é descrita por ele complativamente. Não se vê em nenhum momento do conto o que Irene pensa a respeito da casa, dele e dos fatos que acabam se sucedendo, sendo sua personalidade totalmente filtrada pela lógica do narrador, às vezes extremamente contraditória. É inegável também perceber o quanto a personalidade de um acaba complementando a do outro, levando à idéia do duplo, uma dicotomia extremamente utilizada no conto moderno e esmiuçada até o exacerbável por Borges.
Como intenção do autor em Casa Tomada, vários podem ser os enfoques dados. O exercício da interpretação normalmente traz brilhantes análises e surpreendentes explicações, assim como idéias bobas e conclusões infantis. Nesse conto, nota-se a clara análise psicológica do homem quanto ao seu desejo de fuga do desconhecido e a busca da acomodação frente às intempéries. Pode ser feita também uma leitura no contexto histórico-social: a época da ditadura de Perón e a caça às bruxas – a qual Cortázar sofreu e o levou a se exilar em Paris – do socialismo. Nessa visão, o clima asfixiante e a fuga sem solução causada pelo inimigo onipresente dão o tom da realidade vivida na época na Argentina. A crítica de Cortázar ainda ficaria mais forte quando são relacionadas as duas análises e se pensa na impossibilidade de reação dos argentinos quanto ao absurdo da dominação peronista. Porém, o próprio autor se referiu à idéia do conto como sendo fruto de um sonho seu, trabalhado posteriormente, o que pode vir destruir qualquer objetividade de reflexão – se é que isso existe.
Esse exercício de busca de sentidos em um texto é válido, pois, normalmente, tem fundamentos lógicos e coerentes – claro, nem sempre. Mas cabe lembrar a importância do processo de criação do escritor e seus efeitos no próprio sentido alcançado no texto e essa foi a intenção desse pequeno artigo a respeito de Casa Tomada. O estudo da criação literária combate em parte uma visão de estudo ou crítica que, muitas vezes, perpassa a realidade da obra para analisá-la como um produto exato da intenção de seu autor. Nesse âmbito, é necessário estudar a obra do modo como ela se apresenta, em vez de um estudo acerca do autor e seus “interesses ocultos”. O resultado que fale por si.